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Guia de Gramado RS - Serra Gaúcha - Brasil

Gramado RS - Serra Gaúcha

Texto publicado em 04/05/2012 - 15:43, sexta-feira.por Gustavo De Marchi
A onda perdida
Certa feita, noite alta, estrelada, ao fim de uma longa e boa pescaria, longe da costa, uma onda nos acertou pelo costado. Não era muito forte, mas, nos pegou desprevenidos. Balançou o barco repentinamente, e uma caixa de pescado foi jogada ao mar. Seguramos forte nas amuradas. Que cagaço! Tentamos reequilibrar enquanto muitas coisas soltas corriam pelo fundo da embarcação, entre os espaços das cavernas. No escuro, perdemos o pescado. Uma lástima. Uma tristeza. Um susto de valor elevado, no entanto, poderia ser muito pior: alguém em pé, teríamos homem ao mar.


A onda perdida
Era uma noite quieta, silenciosa mesmo, o mar parado. Sem perturbações, sem marolas, um tanto estranha, por sinal. Então, aquela onda sacode nosso pequeno universo. O Capitão disse que, às vezes, as ondas chegavam muito antes do vento e do temporal. Consultou o barômetro, ainda estava tudo certo. Por prudência, começamos a organizar as coisas e levantar âncora para voltar. A pescaria estava arruinada.

No trajeto me contou uma história folclórica entre os pescadores. Falou que “os antigos” contavam que muito raramente, uma vez por geração, mais ou menos, ocorria uma perturbação oceânica, um episódio marítimo, que deixava a todos perplexos. Nos dias mais calmos que se possa imaginar no mar, uma onda surgia no horizonte. Crescia e vinha como uma parede de água atacar quem estivesse na costa. Era a “onda perdida”. Temida como a uma entidade do mal. A fúria de Netuno. A onda lendária pegava desprevenidos os pescadores e os jogava com seus barcos na praia. Naquele tempo, ninguém pescava muito longe da costa, ficavam próximo às pedras, entre a praia e a ilha e ali havia uma pesca excepcional.

O fundo rochoso era criatório para uma miríade de espécies que servia de foragem aos peixes maiores, que passavam por lá. Além disso, com canoas a remo, não saiam para pescar se o mar não estivesse muito bom, parado como um azeite, sem correntes ou ondas. Não iram longe, também, porque remar no mar é uma tarefa penosa. Contudo, na época em que eu pescava com o Capitão Nelson, já não se poderia pescar neste setor entre a praia e a ilha e até uma milha de distância da ilha, por que se tratava de uma reserva ambiental, graças aos incansáveis esforços do próprio Capitão que, quase teve que dar sua vida para a formalização da reserva, aonde os leões marinhos, vindos do Sul, descansavam ao sol, enchiam a pança de comida e se reproduziam. Havia também as baleias francas, que acasalavam nas águas próximas, promovendo um festival inigualável. Uma grande explosão de vida em uma área muito restrita deve ser preservada a qualquer custo.

Em dias de sol, céu azul e mar sereno, sem explicação, segundo a lenda, surgia a “onda perdida”. Ela vinha, quebrava tudo, e, depois que passava, tudo voltava a ficar quieto como estava antes. Apenas uma onda. Uma intrigante “onda perdida” no oceano. Um momento de fúria do mar, um espirro. Algo com início, meio e fim. A onda passava e o céu azul continuava azul por muitos dias, de tal forma, que não era um temporal que se acercava. O mar prosseguia quieto depois do evento, então, não era vento também. Não sei se era verdade esta história toda, mas, parecia que era isto que nos atingiu naquela noite, claro, em proporção muito pequena, microscópica.

O Capitão Nelson contava que também achava que eram uma lenda “dos antigos”, as tais ondas gigantes que viajavam pelos oceanos. Até que uma vez, muitos anos antes, ele viu com os próprios olhos uma onda enorme surgir no meio do mar calmo, muito maior que a que nos sacudira, e diz que teve muita sorte por conseguir dar a volta na ilha e refugiar-se antes da passagem da onda. Contou que a água parecia ferver no fundo rochoso, a água borbulhava na superfície e que por alguns dias não se pescou mais nada no anzol, tamanha a confusão que deve ter causado, tirando dos esconderijos os peixes pequenos e os entregando aos vorazes peixes grandes.

Fiquei pensando se a tal “onda perdida”, tão rara, não se tratava de um pequeno tsunami, ou algo parecido. Ou o que sobrou de uma borrasca em alto mar, uma procela. Um engasgo. Nunca entendi e tampouco esqueci a história. Quando estudei os tsunamis, descartei a possibilidade: tsunamis nunca são pequenos. Sempre que leio algo que envolva ondas relembro daquele episódio, e em determinada ocasião cheguei a ficar interessado na leitura de em alguns documentos que reportavam pequenas atividades sísmicas no litoral brasileiro, mas logo me desinteressei pelo enfadonho da leitura técnica. De todas as formas, não quero concluir nada, me satisfaz o mistério, mas, apostaria algo, como especulação, em uma resposta a um fenômeno climático qualquer.

Daquele episódio, restou uma inquietação e um ensinamento, que levo para toda a vida. Nas próprias palavras do Capitão: “não se dá as costas ao mar, nunca”!
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